quinta-feira, 30 de novembro de 2017

MICHELLE TRAVESTI

Conto de Lucia Millet


A travesti/trans americana Chanel Santini em foto antiga, antes das próteses de silicone. Eu preferiria que ela continuasse assim.

Dedico essa narrativa a uma travesti bonitinha
que morava num cortiço perto de casa
e que eu via passar da janela do meu apartamento.

Lucia Millet

Talvez eu seja feio ou desinteressante ou quem sabe as duas coisas, não sei. As mulheres nunca se interessaram muito por mim. Quer dizer, algumas até se interessaram, mas Deus me livre! Vivo sozinho, vou ser sempre sozinho, vou morrer sozinho. No final das contas não é tão ruim assim, pelo menos eu me dou bem comigo mesmo. Não tenho amigos, apenas conhecidos e colegas de trabalho. Meu salário me permite pagar o aluguel e o condomínio de uma minúscula quitinete nesse edifício decadente onde vivo cercado de garotas de programa, traficantes, viados e travestis. Pelo menos aqui tenho meu cantinho onde posso ficar sozinho, assistir televisão, guardar minhas coisas. Não me meto na vida de ninguém, ninguém se mete na minha. Vivo bem aqui.
Um dia estava chegando no em casa com as sacolas do supermercado na mão, parado diante da porta do apartamento tentando pegar as chaves do fundo do bolso, quando ela apareceu. Veio pela porta de incêndio que liga meu bloco ao outro bloco, onde há outras oito quitinetes.
– Por favor, me ajude, querem me matar! Estão vindo atrás de mim!
Eu podia ter dito que não, que ela sumisse daqui, que eu não queria me meter em confusão. Não sei por quê, terminei de destrancar a porta e deixei que ela entrasse. Cabe aqui uma explicação: ela não era realmente ela, quer dizer, ela era uma das travestis que moravam no mesmo andar, mas no outro bloco. Também não era uma total estranha para mim, já a conhecia de vista, tinha encontrado com ela várias vezes no saguão e no elevador (quando o elevador do nosso bloco estava quebrado, tínhamos que usar o elevador do outro bloco, e vice-versa). Também não posso negar que olhei para ela, e acho que ela percebeu que eu admirava suas formas, porque me deu um sorriso, e depois disso todas as vezes que encontrava comigo me lançava um olhar provocante. Das travestis que moravam no prédio era a única que eu achava bonita. Não era grandalhona como as outras, magra, sem seios, mas com um bumbum empinado, onde devia haver uma boa quantidade de silicone.
– Olha, a culpa não foi minha. Nós brigamos. Elas me atacaram. Eu só me defendi – disse a Michelle já dentro do meu apartamento.
Eu já ouvira as outras travestis a chamarem de Michelle, por isso sabia o nome dela, ou pelo menos o nome que ela usava.
– Senta aí um pouco – disse eu apontando o sofá que também servia de cama para mim – Fique calma.
Michelle se sentou. Assim sem maquiagem ela parecia menos feminina, mas ainda assim continuava bonita. Os volumosos cabelos pretos que iam até as costas (depois descobri serem em parte aplique) cobriram rosto dela quando abaixou a cabeça, e depois quando a ergueu novamente num movimento brusco, jogando os cabelos para trás, percebi que estava chorando.
– Elas morrem de inveja de mim porque eu ganho muito mais do que elas. Para mim não faltam clientes – e completou, depois de uma pausa. – Agora não sei o que vai ser.
Eu podia ter ficado calado, realmente sou de falar pouco, mas senti necessidade de dizer alguma coisa para preencher o silêncio.
– O que aconteceu? – perguntei.
Enquanto Michelle me contava a história eu observava coxas dela dentro do vestido de malha azul-clara, curtíssimo, um vestidinho velho, já meio desbotado, que devia ter conhecido dias melhores e que agora era usado apenas dentro de casa, mas que continuava sexy. Fiquei sabendo que tinha havido uma briga na quitinete que ela dividia com outras duas travestis, por dinheiro, por ponto de prostituição, por inveja, por um monte de coisas, e que Michelle para se defender das outras, que além de serem duas eram bem maiores, deu uma facada em uma das travestis, uma tal Jéssica. Pronto, aí estava eu com uma assassina dentro do meu apartamento. No desespero ela saiu só com a roupa do corpo, pensou em chamar o elevador, mas acabou vindo parar no outro bloco, onde deu comigo.
            – Calma! Vou ver o que aconteceu – disse assim que ela terminou de contar a história.


A bela travesti brasileira Bianca Freire numa foto do começo da carreira. Ela melhorou com o tempo.

Desci à portaria. Lá já se havia juntado uma pequena multidão de curiosos. Uma viatura de polícia chegou com a sirene ligada e parou na entrada, ainda com as luzes da capota piscando. Logo depois a porta do elevador se abriu e saíram duas travestis abraçadas. Uma delas, que devia ser a tal de Jéssica, com a roupa encharcada de sangue na altura do estômago. A outra travesti a amparava.
– Abram caminho, ela precisa de socorro urgente – gritou a travesti que conduzia Jéssica.
As duas passaram. O próprio carro da polícia levou a ferida para o hospital, porque a ambulância ia demorar muito. Pelo menos não foi tão grave, pensei, a outra travesti não morreu. Tive vontade de ficar ali um pouco mais para obter detalhes, mas tive receio medo que minha repentina curiosidade, partindo de alguém tão reservado como eu, despertasse suspeita. Voltei ao apartamento e dei a Michele a notícia de que a Jéssica não tinha morrido (pelo menos ainda não) e que a levaram para o hospital.
– Graças a Deus! – fez Michelle levando as mãos para o alto.
O vestido curtinho levantou-se com o movimento dos braços e pude ver que ela usava uma calcinha fio-dental preta por baixo. Apesar de tensão, não pude deixar de ficar excitado com aquela visão, mesmo que na parte frente o pênis de Michelle fizesse um certo volume.
– A polícia está lá em baixo. Chegaram mais viaturas. É melhor você ficar por aqui enquanto a coisa esfria – sugeri, pensando comigo que agora que ela já estava dentro do meu apartamento o melhor era que tudo se passasse sem despertar suspeitas, afinal eu era uma espécie de cúmplice.
– Obrigada – disse Michelle.
Havia um descompasso entre a imagem feminina de Michelle e sou voz rouca que, mesmo com a entonação efeminada, soava masculina. Toda a vez que ela falava eu me lembrava que ela não era uma mulher e sim um homem vestido de mulher.
– Vou ligar a televisão – disse com a intenção de distraí-la.
Não estava acostumado a receber visitas em casa, ninguém nunca me visitava, procurei ser o gentil possível.  O televisor acabou se mostrando uma excelente ideia, Michelle ficou imóvel diante do aparelho, absorvida pelas imagens que saiam da tela, sentada com as pernas bem juntas e as mãos no colo.
Fui para a cozinha, quer dizer, aquele corredorzinho da quitinete que chamavam de cozinha, onde cabiam apenas a pia e o fogão de duas bocas e alguns armários no alto (a geladeira tinha de ficar na sala). Eu não tinha o hábito de jantar, comia apenas um lanche à noite, mas agora que tinha visita resolvi cozinhar um arroz rápido, abri uma lata de salsichas ao molho. Quando voltei pra a sala com os dois pratos feitos e talheres para mim e para Michelle, o primeiro impulso dela foi recusar:
– Não, não precisa se incomodar – disse.
– Por favor, eu fiz para nós dois – fiz eu.
Não precisei insistir muito, ela pegou o prato e começou a comer, com os olhos pregados no televisor. Naquela hora passava a novela das sete, bem água-com-açucar, o que para mim era indiferente, porque eu odiava todas as novelas, das seis, das sete e das oito. Comemos em silêncio, apenas nos intervalos comerciais trocávamos algumas palavras.
– Não sei como posso agradecer – disse Michelle – Obrigado por me deixar ficar um pouco aqui. Mais tarde eu me mando, prometo. Não quero causar problemas para você.
– É melhor esperar a polícia ir embora – respondi, lembrando-me do meu envolvimento.
A novela terminou e começaram as primeiras imagens do noticiário, Michelle levantou-se e veio atrás de mim na cozinha onde eu pretendia lavar a louça.
– Pode deixar, eu lavo – disse ela aproximando-se de mim.
– Não precisa – respondi.
Mas ela tomou a frente, roçando em mim aquele corpo cheio de curvas e começou a lavar a louça.
– É o mínimo que eu posso fazer. Qual o seu nome? – perguntou.
– Gilberto.
– Sou Michelle.
– Eu sei, ouvi as outras travestis falando seu nome.
– Também me lembro de você. Já nos cruzamos umas vezes no prédio. Não é verdade? – disse ela sorrindo.
– É verdade – respondi embaraçado.
– Senti que você olhava para mim – disse insinuante.
– É, eu achei você bonitinha. Quer dizer, comparada com as outras travestis – respondi.
               – Obrigada pelo "bonitinha"! – disse ela sorrindo. – Vai assistir televisão, eu termino aqui e deixo a cozinha limpinha.


A travesti/trans brasileira, radicada em Londres, Letícia Crawford, em uma foto antiga, antes das próteses de silicone e da operação de mudança de sexo. Outra que melhorou com o tempo.


Voltei para frente do televisor. Realmente eu gostava de assistir aos noticiários, não sei porque tinha curiosidade pelas coisas que aconteciam pelo mundo, mesmo aquelas coisas de política, tudo me interessava. Michelle veio sentar-se ao meu lado assim que terminou de arrumar a cozinha, ainda cheirando detergente limão. Senti-me novamente excitado ao vê-la ao meu lado com aquele vestidinho curto desbotado, exibindo um par maravilhoso de coxas morenas.
– E você quer fazer alguma coisa comigo? – perguntou ao sentir meu olhar nas coxas dela.
– Não. Acho que não – respondi por timidez. Apesar de me sentir atraído por Michelle, sabia que ela era um homem e eu nunca tinha transado com um homem antes, e mesmo com mulheres fazia muito tempo que eu não transava.
– Você disse me acha bonita... bonitinha... – insinuou ela.
– É verdade. Mas eu não estou te ajudando com segundas intenções. Não quero aproveitar da situação para abusar de você – respondi.
Michelle se aproximou de mim e afagou meu braço. Deve ter percebido que meu pau estava duro.
– Eu não vou me importar se você abusar de mim – respondeu ela sensualmente – Eu até estou com vontade de ser abusada, sabe?
Fiquei parado, sem saber o que responder.
– Você quer que eu chupe seu pau? – ela me sugeriu – Eu sou muito boa nisso, sabe?
Fiz com a cabeça que sim. Michelle se debruçou sobre mim, abriu o zíper minha calça e colocou meu pênis em sua boca. Começou apenas acariciando com os lábios e a língua, depois conseguiu introduzi-lo totalmente, até a garganta. Não sei como ela fazia aquilo, sem dúvida era uma profissional. Ela variava as carícias, ora lambia, ora chupava, tirava meu pênis da boca para colocá-lo de novo até o fim, às vezes levantava os olhos para mim sensualmente. Acho que vi estrelas de tanto prazer!  Acabei gozando na boca dela, o que não pareceu incomodá-la nem um pouco.
 Michelle voltou do banheiro e sentou-se novamente ao meu lado. Nessa hora terminava o noticiário e começava a novela das oito.
– Você gostou? – ela me perguntou.
– Gostei – respondi timidamente.
– Se quiser mais é só pedir. Hoje eu sou sua – disse insinuante.
– Obrigado.
– Sabe, por aí eu cobro uma grana para fazer essas coisas. Hoje você pode fazer tudo o que quiser comigo de graça. Aproveita! – disse sorrindo.
Ela agora tinha se sentado bem perto mim, podia sentir o ombro e da coxa dela roçando no meu corpo, e era uma sensação agradável. Michelle parecia mais à vontade depois de termos transando, como se me tivesse recompensado pelo favor que eu lhe prestava.
– Você tem mulher, namorada? – ela me perguntou.
– Não. Vivo sozinho – respondi.
– Ninguém vem te ver?
              – Não.


A bela travesti americana Domino Presley antes das próteses nos seios. Porém desde o começo da carreira ela aparentava ter silicone nas nádegas. 


Uma vinheta anunciou o começo da novela das oito. De repente, foi como se Michelle não estivesse mais ali, a tela da TV a absorveu completamente. Assim calada ela era uma mulher perfeita. Nos intervalos comerciais trocávamos algumas observações sobre a trama da novela, que eu ignorava completamente, e sobre as ações das personagens, que eu não conhecia, mas que facilmente identifiquei, os bonzinhos e os vilões e aquelas personagens secundárias que preenchiam a novela com tramas paralelas.
– Vou dar uma descida para ver como estão as coisas lá embaixo – disse eu num dos intervalos comerciais.
Para não levantar suspeitas, nem parei no saguão, só passei como estivesse de saída, mas prestando atenção em tudo a minha volta. Havia ainda várias pessoas lá, inclusive alguns policiais fardados. Uma viatura estava parada na porta com as luzes pisca-pisca apagadas. Sai do prédio, dei duas voltas pelo quarteirão, para não levantar suspeitas, e voltei. Contei para Michelle que a polícia ainda estava lá embaixo. Ela me ouviu com atenção, havia medo em seus olhos.
– Você tem para onde ir? Se você quiser pode dormir aqui. Amanhã quando estiver mais calmo você vai embora – sugeri.
– Obrigada. Acho que é melhor mesmo! – ela respondeu – Eu durmo até no chão.
– Não precisa. Este sofá aqui abre e fica uma cama de casal – disse eu, apesar de nunca tê-lo aberto, porque a metade era já suficiente para eu dormir.
Depois da novela assistimos a um programa musical, muito chato, mas que Michelle parecia adorar, e que tive de aguentar até o fim, apesar de saber que no outro canal passava um jogo de futebol interessante. Quando terminou o programa, abrimos juntos o sofá (não sem algum esforço) que realmente se transformou em uma cama de casal espaçosa. Tive de improvisar dois lençóis de solteiro para cobrir a cama.
Michele saiu do banheiro depois de escovar os dentes com a escova nova eu tinha lhe dado. Ainda estava com o vestidinho azul e com as sandálias plásticas com que chegou.
– Acho que tenho uma camiseta que você pode usar para dormir – disse eu lembrando-me de uma camiseta regata que havia comprado e nunca tinha usado, porque ficou comprida demais para mim.
– Obrigada. Só estou com a roupa do corpo. E não vou poder voltar lá para pegar minhas coisas – disse Michele.
– Tinha muita coisa? – perguntei.
– Tinha. Roupas, maquiagem, bolsas, sandálias, bijuterias... ficou tudo lá. – disse ela com tristeza.
– É melhor você não voltar mesmo. A Jéssica pode não morrer, mas você está complicada. Foi uma tentativa de homicídio: dá cadeia – aconselhei.
– Eu sei. Não volto lá nem morta! Depois eu compro tudo de novo – completou com desdém.
Ela tirou o vestido pela cabeça ali mesmo diante de mim. Só então percebi que além da calcinha fio-dental preta ela usava um sutiã sem bojo, apenas um triângulo rendado cor-de-rosa cobrindo seus peitos chatos de rapaz. As duas peças de lingerie não faziam um conjunto, pareciam objetos aleatórios colocados sobre o corpo dela, e mesmo assim eram sensuais.
– Desabotoa o sutiã para mim – disse Michelle virando de costas para mim, exibindo um par de nádegas perfeitas.
Eu sabia que ela mesma poderia desabotoar o sutiã abaixando as alças e puxando a parte com o fecho para a para frente, mas resolvi entrar naquilo que me pareceu um jogo de sedução. Delicadamente desabotoei o sutiã dela.
– Obrigada – disse ela.
– Você tem uma bunda linda – falei vencendo a timidez.
– Se você quiser fazer mais alguma coisa comigo, aproveita. Estou à disposição – sugeriu ela.
– Posso mesmo? – perguntei.
– Claro, amor! Hoje você pode fazer o que quiser comigo. Quer dizer, quase tudo... – completou sorrindo.
Lembrei-me que havia guardado numa gaveta um punhado camisinhas que me deram numa campanha contra a AIDS. Podia ser que já estivessem vencidas, mas quem vai pensar nisso nessas horas.
Há muito tempo eu não fazia sexo, quer dizer, quando o desejo me assaltava, costumava satisfazer-me sozinho com a mão. Fiquei excitado com a ideia de transar novamente com uma pessoa real, quente, que se mexia e gemia autonomamente. E ainda havia a novidade ser uma travesti e não com uma mulher. Michelle deitou-se de bruços na cama depois de tirar a calcinha fio-dental. Ela tinha na bunda e nas costas as marquinhas um biquíni fio-dental que devia usar para tomar sol. Assim de costas ela era simplesmente perfeita. Esqueci quase completamente que boa parte daquilo era resultado de injeções de silicone, concentrei-me apenas na aparência.
Penetrei o cu de Michelle facilmente com a camisinha já lubrificada. Na certa o orifício já estava bastante amaciado pela prática. Meu pênis começou a ir e vir por entre aquelas nádegas maravilhosas. Michele se mexia na cama sem parar, gemia baixinho, dizia coisas indecentes:
– “Me fode!”, “Me fode mesmo!”, “Fode a sua putinha!”, “Põe”, “Põe tudo!”.
Tentei prolongar o máximo que pude o vai-e-vem, não queria que aquilo acabasse nunca. Quando gozei acho que foi o gozo mais delicioso de minha vida. Fiquei indo e vindo por mais algum tempo, mesmo depois de gozar, até que não aguentei mais e tirei o pênis de dentro dela.
Michelle saiu do banheiro já vestindo a camiseta que eu tinha lhe dado.
– Olha meu vestidinho novo! – disse ela dando uma voltinha.
– Ficou perfeita em você – exclamei.
Ela veio deitar-se ao meu lado.
– Adorei transar com você, Gilberto – disse aconchegando-se a mim – Mas sabe, também sou ativa. Se você quiser, também posso te comer. Você quer?
– Não, Michelle, não quero – respondi ofendido àquela proposta que me pegou de surpresa – Assim está bom. Também gostei muito de transar com você.
– Você é quem manda, amor – disse sorrindo, depois prosseguiu – Eu prefiro mesmo ser passiva, mas muitos clientes pedem para serem comidos e a gente não pode negar, né? Ossos do ofício!
– Eu não sou assim – respondi curto.
Michelle tirou a calcinha e a colocou numa cadeira ao lado da cama. De relance vi o seu pênis dela, murcho, uma visão nada agradável, mas que eu tinha de aceitar, fazia parte dela. Apaguei as luzes. Michelle se aconchegou ao meu lado, senti seus cabelos, ombro e coxa encostados em mim. A voz rouca de Michelle que sussurrou: “Dorme com os anjos, amor”. E mais nada.
*        *         *
A fantástica transexual alemã Nicole Charming também em foto antiga, antes das próteses de silicone e da operação de mudança de sexo. Nessa imagem ela deve estar com um bom tucking.

Acordei um pouco atrasado para ir ao trabalho. Mesmo assim fiz café e comi com duas fatias de pão de pão integral que eu comprava de preguiça de ir à padaria a duas quadras de casa.
Michele também se levantou e veio falar comigo.
– Você levanta cedo – disse.
– Não, às sete e meia – respondi.
– Pra mim isso é muito cedo. Eu vivo na noite!
– Imagino – e completei – Agora preciso correr, estou atrasado. Volto lá para às seis da tarde. Fique à vontade, Michele. Tem alguma comida na geladeira, à noite eu trago mais. Se você quiser ir embora, pode ir; se quiser ficar, tudo bem.
– Você quer que eu vá ou que eu fique? – perguntou sensualmente, colocando as duas mãos em volta do meu pescoço.
– É mais seguro você ficar aqui por uns dias – respondi intimidado.
– Você quer que eu vá ou que eu fique? – repetiu me encarando.
– Quero que você fique – disse instintivamente.
– Então... – ela me deu um beijinho na boca – eu fico.
Enquanto ia para o trabalho pensava em tudo o que havia acontecido na noite anterior, de como eu me envolvera em um assunto que não era da minha conta e de como Michelle era deliciosa. Inquietou-me um pouco a ideia de que eu tinha deixado uma estranha no meu apartamento, que poderia, sei lá, roubar as minhas coisas. Já tinha ouvido histórias terríveis sobre travestis. Mas eu não possuía muita coisa valor para ser roubado, apenas um televisor de 14 polegadas, um velho aparelho de som e um rádio-relógio. Achei melhor não me preocupar com isso.


A transexual russa Alice TS. Sabe-se muito pouco sobre ela.


Voltei para o apartamento à noite um pouco apreensivo, sem saber o que ia encontrar. Mas Michelle ainda estava lá, com o mesmo vestidinho azul desbotado, assistindo a TV. Sorriu ao me ver entrar, desviando um pouco os olhos do televisor. Não posso negar que fiquei feliz por ela não ter ido embora. De todas as possibilidades que haviam me ocorrido essa era a que mais me agradava.
Olhei em volta. Na minha ausência o apartamento havia sofrido uma pequena transformação. Depois de anos do meu desleixo, agora as coisas estavam limpas e arrumadas, o chão brilhando, o banheiro e a cozinha lavados.
– Você limpou tudo? – fiz a pergunta óbvia.
– Claro. Esse seu apartamento estava bem sujinho, viu! – disse em tom de censura.
Realmente minhas limpezas eram raras, localizadas e superficiais, e ocorriam somente quando o apartamento ficava insuportavelmente sujo, e eu era bem tolerante à sujeira.
– Já estava no dia de eu fazer a limpeza geral. Neste fim de semana... – menti.
– Enquanto eu estiver aqui você não precisa se preocupar com isso. Eu cuido da limpeza. – respondeu sorrindo – Já fiz a janta também. Espero que você goste.
Fiquei sentado no sofá assistindo TV, como um senhor. Michelle trouxe dois pratos, um para mim outro para ela. Ela cozinhava bem, muito melhor que eu, e mesmo com o estoque limitado de coisas que havia na geladeira e nos armários fez um bom jantar. Comemos em silêncio, com os pratos apoiados nos joelhos, enquanto na TV passava a novela das sete.  Só conversávamos durante os intervalos da novela, essa era uma regra tácita entre nós. Michelle aproveitou o horário do noticiário para lavar a louça, depois de recusar minha tímida oferta de ajuda.
– Fique assistindo suas notícias. Da cozinha cuido eu! – disse taxativa.
Antes de dormir fizemos amor novamente, eu a beijei na pela primeira vez, um beijo profundo, nossas línguas se acariciando. Michelle deu mais uma deliciosa chupada no meu pau e depois deixou que eu a penetrasse. Dormimos bem juntinhos, aconchegados. Não me importava de sentir o volume do pênis de Michelle encostando no meu corpo por trás do fino tecido da camiseta. Para mim ela era uma mulher, uma mulher um pouco diferente, mas mulher.

*            *              *
A linda transexual americana Carrie Emberlyn, totalmente natural.

Ao voltar do trabalho no dia seguinte, ao passei diante de uma loja popular que vendia roupas misturadas em grandes bancas, e resolvi entrar e ver se encontrava alguma para Michelle. Revirando a seção feminina achei algumas coisas que podiam servir para Michelle: duas blusinhas de alça, uma saia de malha, um shortinho e um legging preto. Tentei calcular o tamanho dela tomando a mim mesmo como referência, já que tínhamos quase a minha altura, sem me esquecer que o bumbum dela era volumoso. Fiquei um pouco embaraçado ao passar pela moça do caixa aquelas roupas de mulher, porém ela me atendeu com total indiferença.
Michelle parecia uma criança de tão alegre quando viu o que havia na sacola plástica da loja. Ela correu para o banheiro e num instante voltou vestindo uma das blusinhas e a saia.
– Que você acha – disse, dando uma voltinha.
– Ficou bom. Tive medo de não acertar o tamanho.
Depois ela vestiu a outra blusa e o legging e desfilou para mim. Só o shortinho que não entrou nela de jeito nenhum.
– São coisas baratas, só para você usar em casa. Meu dinheiro é curto – expliquei.
– Obrigada! – disse ela me dando um beijinho – Você não precisava fazer isso.
É claro que eu precisava. Só quando se tem a companhia de alguém é que se sente a total dimensão da solidão. Antes de Michelle eu vivia bem sozinho, achava até que era feliz ao meu modo. Agora voltava correndo do trabalho para casa, sem nem mesmo dar as minhas passadas pelo bar para tomar uma pinga com limão e uma cerveja. Sabia que alguém me esperava em casa, com o jantar pronto, o apartamento brilhando de limpo, minhas roupas lavadas e passadas como nunca tinham sido antes. E ainda havia a expectativa de fazer sexo com ela...
Michelle fez uma lista de coisas para eu trazer do supermercado. Fez também uma listinha de outras coisas que precisava: batom, pó compacto, lápis para os olhos, rimel, pinça para tirar sobrancelhas, esmalte e acetona para as unhas, e um aparelho para ela se barbear. Quando chegava em casa à noite ela estava vestida, maquiada, com as unha pintadas. Comprei mais algumas roupas para Michelle, blusinhas, vestidos, leggings. Um dia tomei coragem e entrei numa daquelas lojas de lingerie, e mesmo sentindo que as vendedoras e freguesas reparavam em mim, comprei algumas calcinhas biquínis e fios-dentais e também três sutiãs com e sem bojo. Em outra loja, aproveitando uma liquidação, comprei para Michelle duas sandálias, uma com salto e outra rasteira, ambas número 41, que era o tamanho que ela calçava.
Fazíamos sexo quase todas as noites. Nós nos beijávamos antes de transar, e mesmo que nessas ocasiões o pênis de Michelle ficasse duro, eu não me importava, ao contrário, considerava as ereções dela como uma prova de amor, ou pelo menos como prova de que ela sentia algum prazer comigo.  Em pouco tempo esgotei meu estoque de camisinhas da campanha contra a AIDS e tive de ir à farmácia comprar mais.
Nunca brigamos, nunca trocamos uma palavra mais rude, nossa vida parecia uma de lua-de-mel.  Eu já estava perfeitamente habituado com a companhia dela. Um dia, porém, ao voltar para casa com um pacote de macarrão, molho de tomate e queijo ralado, porque Michelle queria fazer uma macarronada no dia seguinte, quando abri a porta não a encontrei. O televisor desligado no horário da novela das sete indicava que havia algo errado. Fui até o banheiro e a cozinha procurá-la, como se fosse preciso procurar alguém naquela quitinete minúscula.  Em cima do fogão encontrei uma folha de papel onde ela havia escrito um bilhete:
“Gilberto,

Me desculpe por ir embora sem me despedir, mas acho melhor assim, não gosto de despedidas.

Amei ficar com você esse tempo. Você foi o melhor homem que eu tive. Mas eu tenho que seguir a minha vida, não posso ficar trancada aqui para sempre.

Um dia eu volto para a gente se ver e se amar de novo.

Obrigada por tudo.

Beijos

Michelle”

Abri guarda-roupas, todas as coisas de Michelle haviam sumido. Sentei-me no sofá para me recuperar do choque. Foram apenas duas semanas juntos, mas para mim aquilo parecia uma vida inteira. O caso da facada na tal de Jéssica havia começado a cair no esquecimento, e fiquei sabendo que as outras duas travestis tinham se mudado do prédio. Sem dúvida o clima se acalmara o suficiente para Michelle partisse em segurança. Eu estava tão feliz com a presença Michelle ali comigo que achava que ela também era feliz, sem considerar que ela estava há duas semanas presa em uma quitinete de 35 metros quadrados.
Por algum tempo procurei por Michelle nos lugares frequentados pelas travestis, aqueles pontos conhecidos onde elas se prostituíam. Vi corpos desnudos, ouvi propostas e indecências, mas nem sinal de Michelle. Talvez ela tenha se mudado para outra cidade, quem sabe para outro Estado, bem longe dos olhos da polícia. Pode ser até que esteja usando outro um nome. Gozado, nunca perguntei qual era o nome verdadeiro dela, quero dizer, o nome de homem. Só por curiosidade, não que isso tivesse alguma importância, para mim ela foi e será sempre Michelle.
A imagem dela ficou como que gravada no espaço exíguo da quitinete, sempre ali sentada no sofá assistindo a TV. Às vezes parece que ouço voz dela, aquela voz rouca de travesti, falando comigo nos intervalos da novela. As únicas coisas físicas que ficaram de Michelle foi o bilhete de despedida e uma calcinha meio suja ela esqueceu num canto do armário. Guardei a calcinha como lembrança, assim mesmo como estava.
Sem Michelle, o apartamento voltou ao seu estado habitual de sujeira, minhas roupas mal lavadas e mal passadas, a comida uma gororoba qualquer que eu fazia à noite. Por culpa dela passei a assistir a novela das oito, a que ela mais gostava. Michelle certamente deve estar assistindo a mesma novela em algum outro lugar, e assim parece que fico mais próximo dela. Nunca pensei que ia sentir falta de alguém como sinto de Michelle. E ela, será que também sente falta de mim? Quando nos transávamos ela dizia que me amava, que eu era o melhor homem que ele tinha tido. Mas Michelle era uma profissional do sexo, poderia facilmente fingir que gostava de mim, fingir que sentia prazer quando transávamos. Pessoas como eu são tão fáceis de enganar! Mas não sei, acho que de no fundo ela sentia alguma coisa por mim, sei lá, carinho, gratidão, um amor incondicional, que não pedia nada em troca, que me aceitava do jeito que eu era. Quem sabe um dia ela volte mesmo como prometeu, ou me escreva para nos encontrarmos em algum lugar. Eu iria a qualquer parte do mundo para estar de novo com ela. Michelle, a travesti, foi a única mulher que amei.

FIM

luciamilet@hotmail.com

São Paulo, 29/11/2017


A maravilhosa travesti brasileira Letícia Vlasak em foto também antiga, antes das próteses de silicone. Letícia faleceu de câncer em 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário